O prisma de Newton, só que ao contrário

Lendo aqui (na Folha, em matéria da Juliana Cunha e Amanda Lourenço) os perrengues, a tal “síndrome do regresso” das moças que moraram um tempo no exterior e entraram numa deprê braba ao voltar para o Brasil.

Uma delas, inxcrusível, conseguiu remediar a coisa em São Paulo. Mesmo assim deve ter sido acometida de alguns reparos, que eu também tenho quando volto ao Rio, por exemplo, mas nunca confessei a ninguém por vergonha, por receio de parecer besta.

Na verdade, não é bestice das moças. Um período longo em outro país (geralmente melhor que o nosso, ninguém vai fazer intercâmbio em Brazzaville), o hábito que se instalou, muda a forma de pensar, você aprende que não é preciso levar o raciocínio aos trancos, e o choque ao perceber que aquilo com que (bem) antes estava acostumada é, o fundo, uma meleca.

Vou contar: além de tudo de que reclamo, uma vez, na rodoviária do Rio, nem lembro pra onde ia. Talvez de volta pra SP. Nem falo daquele fantástico terminal, né? Mas é que comprei um jornal pra ler no ônibus. E ELE NÃO VEIO NO PLÁSTICO!!!!! Tá certo que hojindía não peço plástico pra nada, se bem que jornal cru debaixo do braço suja a roupa toda, mas é que em SP qq. banquinha de periferia te dá o jornal num plastiquinho.

Isso não quer dizer que SP seja o ó do borogodó, claro que não. Mas aí a gente volta à razão de ser deste blog: SP, a Londres dos jecas.

Só que nenhum brazuca chega a Londres procurando pelo em ovo. Aqui, ao contrário, é o esporte preferido. Aquela história que sempre conto aqui, daquela conhecida do interior de Minas que reclamou do piso da Estação Vila Madalena: queria que fosse de granito.

Estava lendo uns trechos de José Bonifácio (não o Boni; o Andrada e Silva)e, ó, a análise brasileira um tanto estranhada do jeito paulistano de ser vem de longe (aliás, bem de antes de JB). Ninguém nunca achou muito simpático, mas veio todo mundo pra cá, né, benhê?

Se todo mundo que reclama da cidade fizesse alguma coisa pra melhorá-la…

Ontem eu caminhava para Pinheiros, e resolvi cortar por Vila Madalena. Um rosário de barbeiragens no trânsito.  Lá pela rua Aspicuelta, um carro modernérrimo, vermelho, dois senhoures dentro. Rua estreita, de mão dupla. Eu esperando pra atravessar. O farol amarelo. O véio me viu, não quis nem saber, veio vindo. Parou em cima da faixa. Eu atravessei contornando, oras, fazer o quê?

Mas garanto que ele ganha a sua grana em projetos para uma vida mais humana na cidade, hehe!

Blog sobre São Paulo, novo na praça, excelente!: o Lifehacksp, da alechandracomx. Um pequeno milagre blogosférico: não acha sp horrenda e, por outro lado, não fica de diquinhas gastronômicas. Gostei muito, principalmente pelo raciocínio simples, e o TEXTO simples. Um trecho:

Ocupe. Não precisa levar barraca nem ter grito de guerra. Cruze uma ponte de marginal a pé (principalmente se você for alguém importante), desça ou suba uma escadaria deserta, daquelas que as empregadas do Pacaembu percorrem todo dia, ande nos ônibus povoados por minibaratas.

Porque ocupar avenida Paulista, faça-me o favor!

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9 opiniões sobre “O prisma de Newton, só que ao contrário”

  1. Legal.
    Por esses dias ouvi fragmento da fala de alguém na CBN, dizendo que em qualquer lugar que alguém esteja em São Paulo, esse alguém estaria a cerca de 150 metros de um veio d’água. Parece ser de alguma ONG, com foco em água da Metrópole, pelo que deu para ouvir dos fragmentos.
    Pois, está ai. Será que quem quiser curtir a Cidade, sem atropelar ninguém em praças, parques, ruas etc. pode sair circulando por cerca de 150 metros de casa e encontrar o seu veio d’água?

  2. Copenhagen é uma cidade pequena, São Paulo, um colosso.

    Copenhagen é uma cidade onde a educação já passou do estágio pré-cambriano, São Paulo ainda padece de botocudismo.

    Enfim, não há como comparar. O blog é legalzinho, mas força a amizade achar que SP deve ser igual a Copenhagen no quesito mobilidade de pedestre, porque as demandas são diferentes.

    É certo que muito dos problemas pelos quais passa o pedestre brasileiro (não só o de Sampa) são fruto da má-educação, a dele, inclusive…

  3. Não, justamente o contrário. Ela aha que não dá pra comparar, e pra melhorar SP só olhando pra SP mesmo, e não ficar se lamentando porque SP não é igual a Copenhagen. E me parece que ela é pedestre (pedestre normal, não pedestreativista, o que já é uma grandecíssima coisa).

  4. Lets

    Fui ao Blog. Já está nos favoritos. Xeretando o twiter, vi que Alexandra tem um outro blog: O Pintinho. Mais um filho de mãe brasileira.

    As tiras me pareceram familiares, isto é, acho que já as vi publicadas e não lembro onde.

    Para conhecer O Pintinho da Alexandra [impossível não fazer a piadinha que ela deve ouvir todo santo dia 🙂 ], escolhi este

    http://opintinho.tumblr.com/post/18737771802

  5. Tem algo de podre em Copenhagen. (hehehehehe)

    Seguinte: onde eu moro, tem um monte de faixas para atravessar. Mas eu não fico abanando o braço, não. Espero. Quando dá para atravessar, atravesso. E tem mais: se vão começar a reclamar dos veios de água, é porquem daqui a pouco, querem que a gente desocupe São Paulo para que a água não acabe no planeta.

  6. Bem, Dawran, depois que descobriram que algumas residânces de certa importância em Brasília têm de ser demolidas pra ficar tudo nos conformes do Código Florestal, não duvido que esburaquem o Anhangabaú…

    Né, Maria Edi? Com tanto lugar pra atravessar, daria vergonha levantar a mãozinha…

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