Sempre um especialista da USP

Não sei se vocês sabem, mas aqui em SP é muito fino ser da USP. Consultório de dentista caindo aos pedaços, tá lá a plaquinha velha e suja:

Fulahno Jererecchi Bostocchio, formado pela USP

Foi o que fui obrigada a ver no Bom dia Brasil de hoje, que, por causa do desabamento do prédio na Cinelândia, vem sofrendo da síndrome do “é, mas olha os outros”.

Outro dia uma tubulação rompeu e alagou trechos do bairro do Bom Retiro. Outro dia. Já anunciaram até que as pessoas afetadas serão indenizadas (e em SP, quando o Poder Público diz que vai indenizar, indeniza mesmo).

Pegaram o fato para Cristo, enganchado-o numa infiltração na Estação Consolação e em trechos de rodovias. Aqui é o caos mesmo…

Passei na Consolação outro dia. O aguaceiro é debaixo de um arco, onde a circulação é menor, e vi as faxineiras num trabalho de Sísifo, para que a água não escorresse para os corredores.

Então, resumindo o raciocínio tipo especialista da USP:

Em São Paulo a taxa de sinistros deve ser, obrigatoriamente, zero.

Mas, já que pertencemos ao mundo normal, eles acabam acontecendo.

Já que acontecem, o tempo de conserto deve tender a zero.

Se não tende a zero, é porque está demorando.

Se está demorando, é porque não há manutenção.

Se as empresas responsáveis afirmam que há manutenção, então alega-se que a manutenção não é frequente o bastante.

Se as empresas afirmam que a manutenção é frequente, então alega-se que não é adequada. (Lembre-se: acidentes zero).

Se as empresas afirmam e provam que há manutenção periódica e adequada, o especialista da USP diz: é, fazem, “… mas talvez não com a dedicação, a intensidade e a competência que deveriam ter sido realizadas.”

Jura?

Ah! Não esqueça do clássico “eu lembro”, a origem: os defeitos de construção.

E termine a matéria fazendo um elo psicológico com a tragédia no Rio, alertando sobre o perigo da corrosão do concreto: olha, sei não… Essas infiltrações, um dia…

Ameniza o mico da farofa de cadáveres, é ou não é?

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16 opiniões sobre “Sempre um especialista da USP”

  1. Muito bom! Outra coisa que vem me incomodando, não sei se vc já notou ou concorda, é uma certa modinha na grande imprensa de dar voz a pessoas – geralmente jovens “descolados”, – que estão aqui há não muito tempo, mas detonam SP com uma mão e fazem uma cafunezinho com a outra, porque afinal SP está em altíssima para quem não mora na cidade etc. Na Folha tem dois ou três manés a cada semana, assinando artigos com toda pompa, haja paciência. Outra coisa, achei inacreditável: vc por acaso leu a matéria de capa da última Revista da Folha? É explícito o tom nostálgico da era Marta (argh!), louvando-se a concepção das Sub-prefeituras, como se Serra as tivesse
    detonado, como se o altíssimo grau de corrupção e formação de currais eleitorais que se seguiram fossem mera ficção. Incrível! Abraço

  2. Lets

    Até onde sei, o professor Paulo Heleno conhece bastante a matéria concreto. O que não sei é se ele de fato saberia localizar com exatidão a origem ou as causas do problema e saná-lo.

    A questão para qual eu gostaria de ouvir resposta: “professor Paulo Heleno, o senhor seria capaz de projetar estruturas desse porte e que estariam 100% imunes a infiltrações?”. Certamente ele diria que nenhuma estrutura nesses porte e complexidade estaria 100% imune a infiltrações. Não por acaso a especialidade dele é patologia da construção.

    Do Houaiss. Patologia: desvio em relação ao que é próprio ou adequado ou em relação ao que é considerado como o estado normal de uma coisa inanimada ou imaterial.

    Daí que manutenção é básico.

    Quando se vai á TV ou à imprensa na condição de especialista é preciso ser prudente, do mesmo modo que é preciso ser prudente ao projetar uma estrutura. No caso, não basta ao professor especialista afirmar a origem do problema. É preciso provar que a origem está na baixa “intensidade e competência” dos engenheiros responsáveis pelo projeto e sua manutenção. Portanto, professor, modere o ego…

    “Toda obra desse porte requer uma manutenção permanente [uma evidência em si e que é verdadeira] e os órgãos TÊM FEITO, mas TALVEZ NÃO com a dedicação, a intensidade e a competência que deveriam ter sido realizadas” [Paulo Heleno]

    O que vem após a adversativa “mas” precisa ser provado. Se não for, é mera opinião, que vale tanto quanto a de qualquer outro, especialista ou não.

    Como deve saber o professor, há um preceito epistemólogo e moral fundamental para os cientistas e também para todos nós:

    Existem coisas que são evidentes em si e que são evidentes para nós. Não é evidente que as coisas evidentes em si sejam evidentes para nós, e vice-versa. Uma coisa pode ser certíssima para mim, porém isso não quer dizer que ela é certa em si, que ela é verdadeira. É necessário provar. É necessário procurar os elementos de prova.

    Para registro: a formulação do preceito acima foi feita em priscas eras por Santo Tomás.

  3. mdv, desde a década de 60 ficou meio que definido que os jovens sabem o que é melhor pra todo mundo.

    É óbvio que o mundo precisa evoluir, mas … evoluir. Mesmo um jovem preparadíssimo, formalmente falando, é inexperiente e tosco. Não há como fugir disso. Mas parece que a visão geral prefere o contrário. Com a anuência de muita gente que envelheceu e não amadureceu (justamente por ser refugo dos 60).

    Sobre a matéria, é aquele tal de Mauricio Broinizi, daquela ong que quer porque quer poder por aqui. Faz-me rir! E que bom era no tempo da Marta, não? Em vez de coronéis, todos petistas… Descentralização pra inglês ver.

    Pois eu te digo que se o PT pudesse prolongar a epifania socialista de “ouvir a comunidade”, o povo-povo-mesmo estaria lascado. As assembleias participativas que tanto pregaram, em áreas-chave como a USP e a Cracolex, por exemplo, teriam as mesmas pessoas: as mesmas mafaldinhas gordolengas e os mesmos rapazes tipo barba-sem-bigode. Seria uma espécie de “comunidade itinerante”, sacou?

  4. Paulo, é claro que ele é especialista. E é claro pra mim que eu nunca tinha visto infiltrações na Consolação. Aqui em Vila Madalena havia muitas no início, agora não mais. Também creio ser razoável pensar que qualquer obra está sujeita a problemas, obsolescência e interferências externas.

    A taxa de exigência numa cidade como São Paulo é manipulada, política e pessoalmente, às raias do absurdo. Aqui não pode haver infiltração nunca, as portas do metrô não podem apresentar defeito ne que seja por molecagem e um trem da CPTM JAMAIS poderia atropelar um sem-noção que resolveu caminhar nos trilhos (naturalmente, na cabeça comum, seria adequado que o condutor desse uma bela freada).

    Veja bem, não se localizaram ainda as causas da infiltração. Logo, não se pode apontar, ainda mais em cadeia nacional, dúvidas quanto à manutenção. O “talvez”, em linguagem de massas, quer dizer sim.

    Acho complicado, num país que ultimamente se deu ares de engenheiro de obra pronta, o cara soltar uma dessas. E mais complicad ainda um jornal usar questões comezinhas de uma grande cidade pra fazer contraponto das tragédias de outra.

  5. Lets

    E você viu o horror que é o metrô de SP? A FSP saiu-se hoje com a seguinte manchete:

    “Avaliação do transporte piora, diz pesquisa”

    A “reportagem” começa assim:

    “A julgar pela avaliação dos passageiros, o transporte coletivo na cidade de São Paulo NUNCA esteve tão ruim.”

    E depois:

    “No Metrô, por exemplo, caiu de 84% para 74% o número de usuários que considera o serviço excelente ou bom. O índice de ruim ou péssimo subiu de 5% para 10%.”

    E mais esta na FSP, a respeito da estação Consolação:

    “Metrô improvisa drenos para escoar goteiras na estação Consolação”

    Esta inicia a pérola abaixo:

    “Após vários dias de goteiras, o Metrô começou a improvisar alternativas para ESCONDER a água que escorre na estação Consolação e evitar que ela atinja os passageiros.”

    Esconder a consequencia da infiltração!? Como é possível que a editoria do jornal deixe passar essa estultície!

    Funcionários foram prontamente ativados para minorar os efeitos da infiltração e aí uma besta quadrada escreve que o trabalho é feito com o propósito de esconder a água e o jornal publica!

    Esta outra passagem confere uma exata medida para o défict de intelecto da pateta que escreveu a reportagem:

    “O Metrô diz que as medidas são paliativas.”

    Aí, o que é paliativo assumido até que se encontre a origem do problema vira “jeitinho”:

    “Mesmo com o “jeitinho”, passageiros reclamavam ontem do piso escorregadio e das goteiras que caíam entre as cadeiras.

    “Estava pingando em cima da gente”, conta a estudante Jaqueline dos Santos, 16.

    Se há goteiras sobre as cadeiras, a estudante e a repórter esperavam o quê? Que o metrô distribuísse aos usuários capas ou guarda-chuvas?

    O intervalo entre o trens do metrô não impõe a imperiosa necessidade de esperar sentado até o momento do embarque. São poucos minutos de intervalo entre um e outro trem e muito menos do que, por exemplo, costumamos esperar, em pé, em filas de caixas de supermercados, bancos, cinemas, etc.

  6. Muito bem apontado Paulo Araujo e Leticia. Por esses dias o especialista da Globonews em segurança, falou que a policia do Rio de Janeiro utilizou menos homens para ocupar uma grande favela, enquanto a de São Paulo utilizou muito mais homens para desalojar a favela em S. J. dos Campos. Coadjuvado pelos âncoras. Sempre a eficiência carioca, em comparações que nada têm a ver. E reforço, pouco sutil, da truculência de São Paulo vis a vis as UPPs. Já os concretistas, estão, talvez, no aguardo de um desabamento do Minhocão, da Ponte Estaiada, do Teatro Municipal, do Martinelli, da Catedral da Sé e do Viaduto do Chá. Tudo ao mesmo tempo. Olha uma gota ali…Haja!!!

  7. Pois então, Paulo. Não que não se deva falar, e reclamar quando for preciso.

    Mas se há uma infiltração é ÓBVIO que haverá transtornos. Mas o povo reclamando parece que não vive no mundo real. Puttyneia Aparecida acha ofensivo água pingando. Oras, estava distraída? Não viu por onde passava? Duvido desses depoimentos. A infiltração é em um dos arcos, e é impossível passar debaixo deles pela quantidade de moças com baldes e panos. A área stá interditada, praticamente.

    E o pior, isso é um dogma social: quanto mais furreca é a condição de vida de Puttyneia, mais exigente ela será em ambientes que não são de sua responsabilidade.

    Como aquela colega minha (já contei aqui), que viveu até seus 30 anos numa casa de chão batido e reclamou do piso da Estação de Vila Madalena, porque “não era de mármore”… (ela confundiu com o GRANITO das estações da Paulista).

    E faz-me rir de avaliação de transporte em centro urbano que volta e meia FAZ avaliação de transporte.

    E outra: quase ninguém senta nas cadeiras da plataforma. Justo quando está com problemas, lá vai ela e seu traseiro, só pra ajudar o “set de gravação”. Ahhhh papú!

  8. Isso, Dawran. Favela e Pinheirinho, ó, estão lá, pau a pau, são idênticas. Sobre o Pinheirinho, postei texto do Aloysio Nunes sobre o que realmente aconteceu.

    E, sinceridade? Acho esses comentaristas de segurança da Globo bem fraquinhos. Na queda do edifício, aquele grisalho que entende de tudo louvando um sistema não sei de quê que acionou rapidamente Bombeiros, polícia e o escambau. Para depois fazer farofa de vítima.

  9. Lets, vamos combinar uma coisa: você é a nossa criadora oficial de nomes.

    Fulahno Jererecchi Bostocchio e Puttyneia Aparecida são a comissão de frente de Fevereiro!! (esquindô! esquindô!)

    Quanto às infiltrações: caramba, esse povo está se acostumando – não sei onde – a viver em um mundo onde todos são “amigos para siempre”, um mundo “novo” onde o cordeiro dorme com o leão e não há infiltrações em lugar nenhum. Caraca! Vai ver a casa onde eles moram, a rua onde eles moram … Fizeram essa frescura toda quando viram uma baratinha no buzum? Eu já vi, e nem por isso saí por aí, falando mal do sistema de transporte.
    Gente mal acostumada …

  10. Leticia, seguindo o princípio de anular as simbologias, no caso só tem citações de S. J. dos Campos. E agora foi acrescentado favela, pois, aquilo, do jeito que colocam, parece que era o paraíso de avatar… Era uma favela, que atenuam com o nome de várias árvores. E por essas besteiras do poder público, fizeram lá arruamentos, colocaram sarjetas etc. É por essas burrices que tais ajuntamentos são criados e vira fundunço, fácil fácil. Lá no Rio, fizeram a mesma coisa em cima de morros, de lixão e tudo dá no que dá.
    Está na rede circulando a notificação do ministério dos direitos humanos intimando o Governo do Estado de São Paulo. Impressionante.

  11. Maria Edi, tenho a impressão que você também se dedica ao ofício. Tento novamente te convidar para um café, uma caminhada no Água Branca. Moramos tão perto…

    A baratinha no buzum é ótimo. Esse fenômeno do pobre chiliquento merece um TCC, viu?….

    Sim, eu vi a notificação. Tem coisas que simplesmente não tenho estômago pra postar. E agora à tarde, um big incêndio num criadouro de ratos no Pinheirinho, romanticamente chamado de depósito de reciclados.

  12. Sobre o que disse a Maria Edi, não sei se ainda tem, mas no final dos anos 80, quando morava em Londres, em várias estações da Circle Line tinha uns ratinhos pequenos que ficavam bem visíveis, na área dos trilhos, nas extremidades. E ninguém dava chilique, ninguém, muito menos eu!, que dava era graças a Deus por poder usar um sistema de transporte tão bom, abs

  13. Não é, mdv? A gente sempre vive na mais completa insalubridade e vem dar chiquê logo do metrô…

    “Ah, lá em casa não tem essas coisas”! Espera o tempo esquentar demais, o sifão secar e ver o tamanho das baratas que surgirão.

  14. concordo com o Paulo Araujo, dificil realizar determinadas estruturas sem uma infiltração sequer. Mas, no caso das estações do metrô da linha verde, elas sofrem de um mal chamado reação expansiva n oconcreto, ou seja, o concreto se expande como um bolo no forno.
    esse tip ode reação somente foi difundido no meio tecnico a partir dos anos 1990, depis, portanto, da construção do metrô , na era pre psdb, quando se fazia ainda alguima coisa.
    mas esse tip ode doença do concreto não tem cura, é congenito e degenarativo, e possivel fechar as trincas, impermeabilizar, masdepopis de um tempo novas trincas se formam, não tem jeito.

  15. Tem razão, foi na era pré-PSDB, no tempo do Quércia. Se bem me lembro, a Linha Verde ia até as Clínicas e as estações da Paulista foram inauguradas sem as escadas rolantes. Posteriores expansões, novas linhas e a colocação das malditas escadas rolantes devem ter sido obra do espírito santo…

    De qualquer modo, a matéria do jornal tenta igualar o desabamento de um prédio com estouro de tubulação que não passa nem da canela.

    Já no Metrô, o “especialista”, veja bem, jogou uma coisa natural láááá pra defeitos da construção e insinuou não haver manutenção adequada. Confio mais em suas análises, Pinduca, malgrado suas implicâncias partidárias, que, perto do que temos visto por aí, são inofensivas.

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