Enquanto isso, no SUS paulistano…

Cês sabem que o SUS, como qualquer outro sistema público de saúde no universo, é um pouco mundo cão. Pode ter a maior grana do mundo, pode ter equipamentos, leitos, ótimos médicos e tal, mas padece de um pouco de crueza, pelo simples fato de lidar com gente crua.

Claro que há usuários civilizados, mas há o povo das cavernas em peso, e tem de nivelar a coisa por aí. É por essas e outras que aqui em SP, há algum tempo, o sistema público de saúde não marca consulta pelo telefone. Não pode, não pode, não pode! Só pessoalmente.

O guarda da minha UBS, seu José,  conversava comigo: o povo das cavernas simplesmente não sabe desconfiar do que padece, e isso gerava um desperdício de tempo e de grana horrendo.

Se eu, Lets, estou com um pontinho coçando na minha mão esquerda, deve ter respingado thinner, solvente, substâncias que manipulei outro dia; enfim, a coisa passa, nem precisa de médico.

Mas se isso acontece com um hominídeo de Komdraai, ele vai achar que tem câncer em último estágio e querer ir direto pro IC. Daí, outro paciente que tem câncer de fato teria de esperar esse e milhares de outros australopitecos alarmistas, e assim o médico especialista consumiria seus dias com equívocos das cavernas.

É por isso que o SUS em SP é uma aparente via-crúcis de consultas e tem uma metodologia de prevenção bem presente: primeiro o médico geral que te põe pelo avesso, depois os exames, depois os especialistas, depois isso e aquilo, seguindo um critério de urgência ou não. Pra não acontecer bagunça oriunda da falta de discernimento geral.

Pois bem, em janeiro ficou combinado de eu marcar um cirurgião prááástico pra retirar um sinalzinho que nasceu do lado externo da minha mão direita. Coisinha besta de ambulatório. Nada tão urgente, mas uma hora tem de fazer.

Uns telefonemas, e ontem me disseram que já se poderia marcar. O rapaz me disse que havia uma desistência para o meio de fevereiro, mas eu tinha de ir lá hoje a partir da 1 h da tarde falar com Fulana. Ainda no telefone, pedi a ele pra anotar meu nome, que eu queria a desistência, e tal.

Fui, confesso, sem muita esperança, porque a fila anda grande. Não só na minha UBS mas em todos os postos que vou, o povo trabalha bem direitinho, mas o serviço é desgastante – de novo o povo das cavernas -, e teoricamente não haveria muito espaço para gentilezas.

Cheguei com dez minutos de antecedência, logo depois chegou Fulana e começou a atender. Havia pouca gente, não demorou. Chegou a minha vez, cumprimentei e me apresentei. Já ia mencionando o telefonema quando ela tirou um papel do bolso com meu nome e disse: você ligou ontem, Leticia. Está aqui, não esqueci, há uma outra desistência antes daquela, para o início de fevereiro.

Marcamos, eu apresentei um protocolinho de carteira do SUS (fui assaltada, lembra?), e de quebra  ela emitiu uma nova carteira para mim. Assim, tudo em menos de dez minutos.

Isso, mais a sensibilidade da diretora da minha UBS que, dias antes, forneceu meus remédios mesmo sem receita (também levada no assalto…), coisa que normalmente “não é permitido fazer” porque o povo das cavernas nasceu com o dom de fazer rolinho com remédio do governo.

No custo/benefício, estou satisfeita com a saúde pública daqui. É só se programar direitinho que sai tudo certo.

***

Daí você me pergunta o que é que o deputado Roberto Freire (PPS) tem que ver com isso. Tem tudo.

Ele acaba de conseguir uma verba de de 2,2 milhões de reais para o Hospital Sorocabana, Santa Casa de Misericórdia e o GRAAC, todos da capital.

O maior montante, cerca de 1 milhão e meio, vai para o Sorocabana, de que já falei aqui quando fechou as portas em 2010, após gestões com desvios de recursos e muita, muita sangria de grana federal, que repassava dinheiro mas não auditava.

Na ocasião, pedi para que o hospital fosse estadualizado, mas aconteceu algo melhor: serão município e estado a comandar, então o bichinho agora vai, o que é uma bênção pro pessoal da Lapa e região.

Daí eu preciso rever… se tiver um piripaque, vou na emergência para as Clínicas ou para o Sorocabana? (Ele vai mudar de nome? Era melhor, não?)

Então, meu reconhecimento ao deputado Roberto Freire. Ele poderia ser até do partido trotskista-leninista de Kim Jong-Il que nem me importaria. Sendo honesto e defendendo os interesses do meu estado, sem trapaça, já está de bom tamanho.

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9 comentários em “Enquanto isso, no SUS paulistano…”

  1. Na verdade a saúde pública séria funciona bem de modo geral.

    O problema é que quando a Rede Globo quer captar algum tipo de choro, ela vai direto para postos de saúde e hospitais de referência regional, ou seja, lugares que são a porta de entrada do povão ao sistema e, por isso, estão sempre hiper-lotados, dentro daquele contexto de que o cara acorda com uma dorzinha de cabeça e vê nisso a oportunidade de matar um dia de trabalho com um atestado.

    Daí ele vai para a fila do posto e mesmo que não tenha nada, espera para o médico dizer isso para ele, roubando vaga e atendimento de quem precisa. E não raro aparece uma grávida que não pode ser atendida porque tem 30 vadios com dores musculares aguardando receber atestado para matar serviço naquele ou em mais dois dias.

    Mas uma vez que se entra no sistema, ao menos em SP e no sul do país, você é bem atendido, dentro, claro, das limitações naturais, uma delas, a óbvia falta de equipamentos de ultima geração, que são inacessíveis às massas em qualquer lugar do mundo.

    Claro que no norte/nordeste essa realidade é outra porque:

    a) Faltam médicos lá;
    b) Faltam hospitais e postos de saúde lá;
    c) A demanda é maior porque existem menos hospitais privados lá e menos planos de saúde bancados por empresas;
    d) Falta vontade política de melhorar as coisas, afinal, os governantes de lá (com exceções, bem dito) são do nível de Sarney, Barbalho, Arraes, etc…

    Já no RJ a questão é um pouco mais ampla. NADA funciona direito no RJ porque é a terra do oba-oba, tudo é feito como desfile de escola de samba, de modo que lá… não é parâmetro para avaliar o resto do país, como quer certa rede de TV.

  2. Para mim, o SUS funciona – sempre fui muito bem atendida, dentro do horário decente. O que eu noto em atendimento – seja médico, seja no Consulado americano – é que o brazuca em geral fica pensando nas teias de aranha do umbigo, na última maldade da vilã da novela das nove, no bigbrother e se “esquece” de prestar atenção ao seu número de senha. Em banco e no INSS também é assim. Então, vem aquela choradeira, que o serviço não presta, essas coisas. Por que diabos NENHUM candidato de Sumpaulo fez o que ele fez?? Pelo menos, dos conhecidos …

  3. Com todos os elogios quando as coisa acontecem assim, como o relatado. Pacientes organizados e funcionários competentes. Alvíssaras. E alvíssaras também à recuperação do citado hospital.

    Mas, umas pauladas que ninguém é de ferro. Essa coisa de paroquialismo de enviar verbas para suas bases etc. não parece adequado, não. Seja quem for que faça, mesmo que a verba chegue, seja aplicada, gere os resultados etc. fica o que realmente é: desorganização do poder público em prover recursos a órgãos e atividades necessárias e fundamentais. E infindável campanha por votos em redutos seus ou em novos redutos abertos com a chave da grana pública.
    Mas, num mundo perfeito, todo mundo pegaria um avião e iria ser tratado em Varadero, Cuba, com cartilagens de tubarão e rum do bão. Depois, charuto, que ninguém é de ferro. Ou em Paris, NY, Berlim, Oxbridge, São Paulo, Porto Príncipe…

  4. Fábio, exceções à parte, a saúde pública é mal-gerida. Aqui em SP também há as mazelas. Mas em meu pouco tempo de SUS paulistano nunca vi um funcionário “padrão”, do tipo que maltrata as pessoas porque está de saco cheio. Aliás, minto: uma vez, há muitos e muito anos, no tempo da bagunça, fui parar no HC e a paquiderme mudou de tratamento comigo quando perguntou minha profissão. Só. Lá dentro, apesar do caos que era naquele tempo, fui atendida prontamente e muito bem.

    Mas hoje, no dia a dia? Nada a reclamar.

    Maria Eddy, você me fez lembrar uns meses atrás, eu e uma pessoa no AC Camargo (lembra que meu 2011 foi de lascar?), uma família fazendo um verdadeiro piquenique no saguão do ambulatório. E as senhas rolando, aquele barulhinho a tarde inteira! Só depois de muitos anos, a moça repetindo a chamada, é que se deram conta. Levantou todo mundo de uma vez, e eu e minha companhia se esforçando para não rir.

    Mas Dawran, é assim que funciona. Eu já me dou por satisfeita de o cara e toda a cadeia da coisa fazer isso honestamente. Já pensou conseguir verbas e elas não chegarem ao destino? É o padrão do país…

    Particularmente, estou supercontente pelo Sorocabana (que, repito, espero que mude de nome). Um hospital muito caro à toda a região oeste e cujo fechamento (má gestão, meu Deus!) deixou um monte de gente na mão.

  5. Sim, Leticia. Por isso a ressalva. Sistemas assemelhados devem ocorrer ai pelo mundo. Contudo, apesar de, em caso como esse, a probabilidade dos recursos serem efetivamente destinados ao lugar devido seja grande, o paroquialismo não convence.

  6. Nada convence quando o lugar é jerereca, Dawran. Cê vê o texto do José serra sobre o assassinato de Ceci Cunha. Executaram a mulher na noite da diplomação, isso tudo só porque o suplente queria o lugar dela. Em Alagoas, o novo fim do mundo.

  7. Exatamente, Leticia. Quando o santo não é de barro, pode balançar o andor. Mas, esse paroquialismo ainda não convence. Independente de onde ocorra ou seja quem for que o faça. Urge ser encontrada outra forma. Lembra que há pouco tempo foi descoberto que ainda era pago algo como “auxílio paletó” a políticos da província? E talvez, algo assim, ainda exista por ai afora. Essa de verba destinada por fulano para reforma da torre de igreja não dá. Mesmo que a reforma seja necessária e realizada.

  8. Sei que o comentário é tardio, mas lá vai.

    Temos duas filhas. A primeira nasceu no Hospital e Maternidade Santa Joana, em 2000. Um quarto confortável, equipado com TV, frigobar e etc. Visitas a qualquer hora do dia ou da noite.A bebê vestidinha com as roupas levadas pelos pais, trocadas algumas vezes por dia.

    A segunda nasceu na ala SUS do Beneficiência Portuguesa em 2010. A bebê foi mostrada rapidamente ao pai através do vidro e levada para a salinha para onde vão os recém-nascidos.Para a mãe, enfermarias com três leitos, sem TV, sem frigobar. Visita só em certo horário. Crianças abaixo de 12 anos não são permitidas. O pai só irá segurar a filha quando a mãe tiver alta. Nas visitas, escreve-se o nome da mãe num pedaço de papel e mostra-se o papel para uma das enfermeiras do berçário. Há uns dois bercinhos próximo ao vidro, as enfermeiras olham os nomes nos papéis e trazem as crianças para eles por alguns minutos para que os parentes possam ve-las, sempre
    através dos vidros.No berçario a bebê fica enfiada em um tipo de saco, a roupinha que os pais levam é só para saída do hospital.Detalhe: além de serem levadas para mamar no peito das mães, as crianças são alimentadas com leite dado pelas enfermeiras, em pequenos copinhos.

    Querem saber? Minha esposa saiu do Beneficiência mais descansada e recuperada que do Santa Joana, pois as visitas eram restritas e rápidas. A bebê saiu mais fortinha (minhas duas nasceram miúdas, preferem crescer fora da barriga). Sem ter passado por nenhuma mão não esterelizada de visitantes. Eu, não podendo ficar no quarto com minha esposa, as recebi mais descansado e pude ajudar mais nos primeiros dias delas em casa. O saquinho meio tosco que usam para vestir os bebês deve ser quentinho e prático, e não inspira aquela coisa de “Olha aquele ali que roupinha pobrezinha, coitados”, já que todos vestem a mesma coisa. Leite dado pela enfermaria? Olha, tem muita mulher que tem dificuldade em amamentar, tem muito bebê de origem pobre
    que nasce debilitado e precisa de um reforço sim. Mamãe e bebê saem bem alimentados, tendo passado por todos exames necessários, com uma
    bolsa do programa Mãe Paulistana (dentro, um livrinho – uma mistura de “manual de instruções para pais de meninas” com caderneta de vacinação – um cobertor, e mais alguns itens que não lembro.

    Eu fiquei positivamente surpreendido pela brusca eficiência do sistema deles lá, sendo que essa certa brusquidão de regras (visitas olhando o bebê pelo vidro, não poder colocar a roupinha, minha filha mais velha não pode visitar a mãe) foi compensada por um atendimento cordial e humano.

    E foi pelo SUS. Parabém ao pessoal do Beneficiência.

  9. Skynight, seu comentário não é tardio. O post é sobre um fato passado, mas ele e os comentários valem por anos. É do SUS que funciona que falamos aqui, e você pegou bem o espírito da coisa. Como eu, conhece desde os hospitais mais sofisticados até a parte pública, no caso, da Beneficência. Já estive lá tb., visitando uma pessoa. A gente sente a diferença, mas é nesse nível que você falou: não há espaço para fofurices, mas tudo é tratado corretamente, funcional e eficazmente.

    No SUS, ninguém sabe de onde viemos, por isso somos tratados (bem tratados) como se fôssemos o mais primitivo dos seres. Cartilha pra pais, proteção física da criança, roupinha igual, reformo no leite e tudo o mais. E, acrescento eu, esses cuidados com a criança são para evitar sequestros, ou de pais, ou de estranhos. O Estado, com a sociedade que temos, tem como fazer diferente? Não, né?

    Boa sorte para você, sua esposa e suas filhotas. Abs,

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