Curso rápido de engenharia

A maneira mais rápida de um ser humano tábula rasa se formar em engenharia com louvor é adentrando uma casa da CDHU. Senão vejamos:

Você constrói sua casa no morro focando no único aspecto que eleva a construção civil ao verdadeiro “estado da arte”: o equilíbrio.

Daí, na próxima chuva mais forte, tudo despenca, você fica desabrigado e, se tiver a sorte de estar sob um governo bonzinho, terá abrigo, comida, assistência psicológica, massagem e tal e, dentro em breve, adentrará seu imóvel CDHU novinho em folha, com três dormitórios, azulejo, piso e tal.

Aí é que entra o curso intensivo: da singela arte de equilibrar um tijolo sobre o outro em cima da terra batida você entra no mundo maravilhoso das sutilezas construtivas, e seu padrão de exigência vai de zero a cem de um dia para o outro, bem como a taxa de delegabilidade: se antes fazia tudo sozinho, é capaz de esperar meses com tudo alagando para que os técnicos venham ajeitar uma telha fora do lugar.

Os exemplos a seguir são todos no estado de São Paulo, e tenho até preguiça de explicar o porquê:

Rancharia: “A casa de Frederica de Aguiar Ribeiro, 46, foi uma das mais atingidas. O esgoto retornou pelo banheiro e se espalhou pela moradia, alagando todos os cômodos. “Como vou morar no meio dessa imundice?” [sic, não sei exatamente se de dona Frederica ou do jornalista].

Franca: Desde que se mudaram para uma casa popular no Jardim Santa Bárbara, em Franca (SP), há oito meses, o problema é o mesmo: a água escorre do forro e desce pelas paredes de todos os cômodos.

Viradouro: […] conjunto de moradias populares Jardim Cotrim, que foi entregue sem a pintura – as paredes tinham apenas selante, uma massa contra umidade.

São Bernardo, Jaboticabal, Caraguatatuba: demora na entrega.

Itaquaquecetuba: entregue no prazo, reclamação de falta de acabamento (moradores recebem o kit de torneiras, ralos, etc.).

Ribeirão Preto:  aquecedor solar com defeito.

Cubatão: pobrema de fiação.

Eu acho cá comigo, filosoficamente falandjo, que a melhor maneira de não encontrar defeito algum numa casa recém-construída é que ela não exista. Você veja, por exemplo, o pessoal do Morro do Bumba, em Niterói, RJ: reclamação zero.

A CDHU avisa que tais falhas são normais e que as consertará. Também não sei se adianta muito pra tico e teco avisar que problemas com fiação e telhas são oriundos de roubo de fios.

Mas, olha!, eu queria experimentar essa mudança de mentalidade repentina, viu?

Canso de dizer que, se estivesse na mesma situação, se entrasse numa casa assim no mole eu pintava ela toda rezando, de joelhos, e meus miolos não são tão poucos assim que não pudessem rosquear uma torneira, fixar um ralinho, ajeitar uma telha…

Mas sou simplória… Esse tipo de mentalidade que atravanca o país, tsc, tsc, tsc!

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16 opiniões sobre “Curso rápido de engenharia”

  1. Let’s
    Se voce tiver tempo de uma olhada nesta notícia.

    http://www.jornalvicentino.com.br/home/2007/10/25/conjuntos-com-700-unidades-serao-recuperados-em-sao-vicente-pela-cdhu/
    Muito antes do término das obras a população invadiu os imóveis e roubou materiais para construção. resultado faz uns 10 anos que o conjunto começou a ser construido e uns 5 anos que está só na estrutura, roubaram desde o telhado e madeiramento até os pisos. Só sobraram as paredes. O bairo é da periferia de “Sãoviselva” no litoral de SP.

    Depois o povo recrama que tá vazanu as bica na parede?

    Ahh, em tempo, a reportagem diz que os conjuntos receberiam obras e seria entregues no PAC e no Minha casa minha vida. Mas pelo que parece tudo ficou só na promessa.

  2. É o que eles chamam de “pogresso”.

    Porque “pogresso” para vagabundo é não trabalhar. Se dantes tinha que empilhar tijolos em terreno invadido e ganhou casa nova porque a chuva levou tudo, foi “pogresso” o que significa que não vai mais empilhar tijolos ou praticar atos na mesma linha… “pogresso” é não trabalhar, só isso!

  3. Não gostaria de doar as soluções a quem quer que fosse. Porém, o Governador e o Prefeito de São Paulo, Estado e Cidade, conurbada, metropolizada, cosmopolita etc. deveriam aceitar as pressões por qualidade e passar a construir pinguelas, fazer diques com estradas de rodagem, colocar ralos nas várzeas de rios, amarrar cipós em postes para o pessoal poder voar por cima das ruas alagadas, retirar os Metrôs, ônibus e Trens Metropolitanos, substituindo-os por canoas feitas de junco, bambus, câmaras de pneu, banheiras, tanquinho, portas, máquinas de lavar, bacias, pets de todo tipo…Talvez assim merecessem os prêmios e as bajulações devidas. Ah, e deixar a grana na conta.

  4. Meninos, não digo que o estado deva fazer casas populares de qq. jeito só porque são populares. Mas vir reclamar, logo aqui? Me economiza!

    É, Dawran, o caminho da epifania populista é bem outro.

  5. Qualquer casa popular é muito mais bem construída que qualquer barraco pendurado em morro. Se não tá boa, mão à obra!

    Afinal, o cara que sobe o morro, escolhe um terreno, leva tijolos nas costas, levanta o barraco, vai melhorando continuamente, pode muito bem gastar um pouco dessa mesma energia em fazer a manutenção do novo local onde foi alocado, ou não?

  6. Pobre diz que não tem nada, mas quando chove diz que perdeu tudo.
    O estado não tem que dar casa pra ninguém. O dinheiro usado para isso não é dele para dar.
    A pobreza é vista como um fenômeno que deve ser explicado apenas por meio de análises complicadas, doutrinas conspiratórias, fórmulas mágicas e feitiçarias. Essa visão acerca da pobreza é, na verdade, parte do problema, impedindo que a questão seja abordada corretamente.
    A pobreza tem sido a condição natural e permanente do homem ao longo da história do mundo. As causas da pobreza são bem simples e diretas. Em termos gerais, indivíduos em particular ou nações inteiras em geral são pobres por uma ou mais das seguintes razões: (1) eles não podem ou não sabem produzir muitos bens ou serviços que sejam muito apreciados por outros; (2) eles podem e sabem produzir bens ou serviços apreciados por outros, mas são impedidos de fazer isso; ou (3) eles voluntariamente optam por ser pobres.
    A correta identificação das causas da pobreza é algo crítico. Se ela for vista, como ocorre muitas vezes, como resultado da exploração, a política que naturalmente irá ser sugerida é a redistribuição de renda — isto é, o confisco governamental da renda “adquirida injustamente” por algumas pessoas e sua subsequente “restituição” aos seus proprietários “por direito”. Trata-se da política da inveja: programas assistencialistas cada vez maiores em nome de uma suposta igualdade, a qual é impossível de ser obtida na prática.
    Quando a pobreza passar a ser vista como o que realmente é, a saber, o resultado de intervenções governamentais irracionais — como regulamentações, burocratização, tributação e inflação — e da falta de capacidade produtiva, políticas mais eficazes surgirão.
    http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=971

  7. Nada mais natural que o sonho da casa própria. Todos gostam da idéia de ter um teto seu. Governos populistas exploram esta demanda, estimulando o crédito imobiliário ou mesmo a construção direta de casas populares. Trata-se de um “altruísmo” com o esforço alheio, já que o governo não passa de um instrumento que tira à força de José para dar a João. Quando as pessoas falam de “direito à moradia”, esquecem que casas não caem do céu; logo, o direito de João ter sua casa representa necessariamente o dever de José construí-la. Para Robinson Crusoé ter “direito” a uma casa, Sexta-Feira deve ser obrigado a fazê-la. Eufemismos à parte, isso tem um nome: escravidão.
    Por que seria justo alguém ser forçado a trabalhar para que outro possa ter uma casa própria? Aliás, por que todos devem ter uma casa própria? A decisão de comprar uma casa, com crédito ou não, deve ser individual, de acordo com as possibilidades do orçamento. Muitas vezes não fará sentido comprar uma casa, sendo melhor viver de aluguel. Quando o governo intervém e estimula artificialmente a construção de casas e o crédito imobiliário, ele está praticando uma injustiça com os pagadores de impostos, além de incentivar a formação de distorções no mercado que podem eventualmente formar uma bolha.

  8. Fábio, o Estado é grande e generoso, então dá pra bater, tendeu? Já viu que o povão não exige nada de traficante nem de si mesmo? É porque um e outro são de péssima qualidade. Quando encontram algo bom, sai de baixo! Compare a morte de um qualquer lá no Piauí e a morte de J. Ch. de Menezes, o fuá que foi… É uma relação direta com o poder indenizatório do ofensor.

    Libertário, eu trabalhei pra pagar meu apê e mais umas cinco unidades de CDHU. Detalhe: cometi a idiotice de achar que comprei meu apê pra morar nele. Poderia fazer um sambalanço entre compra e venda a vida toda. Conheço gente que se sustenta assim.

    Thalita, malvada e malvada e malvada!!!!!

  9. Leticia, agora acabei bioando. Seria a epifania de Beethoven, a Nona?…hehehehe…
    Desculpe, mas o início de ano é bom para fazer piadas idiotas, pois, parece, ao menos, está todo mundo meio que anestesiado…Não é o caso, juro, blogueira!!!

    Mas, vamos lá. O “embolhecimento” de um ativo, segundo especialistas, ocorre “quando o “vagulino impedernido”, aceita pagar pelo bem, valor acima do fluxo de renda que esse mesmo bem poderia proporcionar””. Isso só pode ocorrer, quando o “desindivíduo” acima citado, considera, imagina, sonha, que poderá passar o bem para a frente num valor equivalente ou superior ao fluxo de renda futuro. Assim, ele tenta fazer com que o infeliz que procura um bem como aquele, acredite que se não comprar naquele momento, naquelas condições, perderá uma grande oportunidade. Todo o restante consubstancia em derivativos diversos, falências, consignações, trocas, bagunças, carraspanas homéricas…

  10. …isso está no “remake” do filme “Wall Street” e também no filme “O Dia Antes do Fim”, “Margin Call”, no título em Inglês.
    São tenebrosos exemplos do que ocorre nesses “embolhecimentos” de ativos financeiros. Nos filmes são coisas terríveis, dá para imaginar na vida real.
    Pois, bem, pode ser que muitas vezes esses imóveis de programas sociais tenham sua função desvirtuada. Acabam virando moeda de troca. Por isso os programas são tão complexos. Sempre há tentativas de impedir desvios. Atualmente, uma das inovações, é o imóvel sair em nome da mulher. Sei lá se os riscos de “frigideiradas” nas cabeças tortas dos vagulinos malucos, os impeçam de passar o imóvel pros cobres…Por conta de pinduras no “buteco”…Porém, na “marginália”, à parte do sistema, mesmo os barracos pendurados em encostas, parecem seguir o mesmo diapasão.
    Há tempos, deu para ver um local onde foi criada uma favela, na Zona Sul. Além dos prédios de alvenaria, naquele estilo típico, haviam barracos de madeira onde parecia ser calçadas. E esses barracos infectos eram alugados a peso de ouro, vendidos a peso de ouro, tomados e retomados a peso até de balas…

  11. …ou seja, lá, onde há puristas de tigela meia, que chamam os referidos locais de “comunidades”, só se for na “esculachonchinha”.
    Se for uma “comunidade”, nesse sentido ideologizado, há “embolhecimento de ativos” lá. E fora do sistema. Mas, com valores acima até daqueles que o sistema pratica. Difícil de dar um valor, dado a corrente parecer não ter fim e a cada elo aumenta mais um pouco. A demanda é forte, o que provoca a oferta. E isso não se dá por “mão invisível”, não. Dá-se muitas vezes, por “dedos moles”. Dia, os valores são daqueles que o sistema na sua vã filosofia, pratica. E estes, já são fantasmagóricos.

    Assim, Thalita, reenviar o “tar” de volta para o barraco, pode até ser uma boa, viu?

  12. Dawran, qq. coisa pode virar moeda de troca, até ratos que moram em sofás velhos. No caso das casas fornecidas pelo Estado e que são escrituradas em nome da mulher, é questão de estatística, já que acontece mais de o homem largar sua mulher e desalojar a família do apê pra entrada da puttyleine. E o contrato prevê que possam ser vendidas. Mas… tanto assim? Talvez a mentalidade do Estado imagine que uma casa própria seja ponto de partida para uma vida melhor. Já a cabeça dos moradores…

  13. O Estado pode, realmente, pensar assim Leticia. Além do que, o empoderamento da mulheres, nesses casos, pode, talvez, atenuar um pouco a penúria da falta de moradia se a parceria não der certo. Porém, sempre há certo exagero em tais coisas. Um certo nivelamento. Quanto ao “embolhecimento”, ou as “moedas de troca”, há um debate relativamente intenso se há mesmo uma bolha e se ela explodirá e quando. Ou que não há nada disso e que a economia está estável. O fato, é que há muita rede de contenção, via fiscal, em parte importante, que impede, por enquanto, é de se crer, a emergência de tal problema. Por isso essa sensação de “vai que não vai”.

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