Toca aqui, professor!

Não assino Veja, que na edição desta semana traz uma entrevista com Evanildo Bechara a respeito das bagnices ultimamente em pauta. Mas encontrei esta entrevista no Ig, de 13 de maio último. Mais cristalino, impossível (grifos meus):

[…] o aluno não vai para a escola para aprender “nós pega o peixe”. Isso ele já diz de casa, já é aquilo que nós chamamos de língua familiar, a língua do contexto doméstico. O grande problema é uma confusão que se faz, e que o livro também faz, entre a tarefa de um cientista, de um linguista e a tarefa de um professor de português. Um linguista estuda com o mesmo interesse e cuidado todas as manifestações linguísticas de todas as variantes de uma língua. A tarefa do linguista é examinar a língua sem se preocupar com o tipo de variedade, se é variedade regional, se variedade familiar, se é variedade culta. Ele estuda a língua como a língua se apresenta. Já o professor de português, não. O professor de português tem outra tarefa. Se o aluno vem para a escola, é porque ele pretende uma ascensão social. Se ele pretende essa ascensão social, ele precisa levar nessa ascensão um novo tipo de variante. Não é uma variante que seja melhor, nem pior. Mas é a variante que lhe vai ser exigida neste momento de ascensão social.

[…] Ninguém vai para a escola para viver na mesmice. Eu chamaria de mesmice idiomática. O aluno vai para a escola, mas acaba saindo dela com a mesma língua com a qual entrou. Portanto, perdeu seu tempo. Na verdade, sempre se vai para a escola para se ascender numa posição melhor. A própria palavra educar, que é formada pelo prefixo latino edu, quer dizer conduzir. Então, o papel da educação é justamente tirar a pessoa do ambiente estreito em que vive para alcançar uma situação melhor na sociedade. Essa ascensão social não vai exigir só um novo padrão de língua, vai exigir também um novo padrão de comportamento social. Essa mudança não é só na língua. Portanto, não é um problema de preconceito. E, para esses livros, parece que o preconceito é uma atitude de mão única. Mas o preconceito não é só da classe culta para a classe inculta, mas também da classe inculta para a classe culta.

[…] porque o sucesso da sala de aula não depende do livro adotado. Depende da técnica e do preparo do professor. Um bom professor pode trabalhar muito bem com um mau livro, assim como um professor sem preparo não consegue tirar tudo de bom do aluno com um bom livro. Porque ele está mal preparado e não sabe aproveitar o livro. O sucesso da sala de aula não depende do livro adotado. Mesmo porque o bom professor não é aquele que ensina. O bom professor é aquele que desperta no aluno o gosto pelo aprender. A sala de aula, o período de escola do aluno, é um período muito pequeno para o universo de informações que ele deve ter para ter sucesso na vida. Pelo menos teoricamente. No meu tempo de aluno, nós tínhamos apenas dois livros: durante quatro, cinco anos, tínhamos a mesma antologia e a mesma gramática. Mas, embora os professores não tivessem tirado o proveito das universidades, eles levavam para a escola uma cultura geral muito boa. E era essa cultura geral do professor de matemática, de física, de química, de português, era o grande atrativo para o aluno. Mas o professor que se limita ao programa estabelecido pelo livro didático, é um professor que é conduzido, é um professor que não tem conhecimento suficiente para sair dos trilhos oferecidos pelo livro didático. (íntegra)

Anúncios

12 comentários em “Toca aqui, professor!”

  1. Até que enfim começa a aparece resistência ao que está tentado lograr transformar a Educação em nosso País, num terreno para o exercício da arrogância, prepotência e niilismo. Em suma, em campo para experimentalismos ideológicos, atrasados, extemporâneos e burros. A jumentisse deve entrar no fim dos seus tempos.

  2. Eu li o capítulo do livro que está na internet. No que o livro acerta ele não se diferencia dos outros manuais. O erro grave é o “conceito” [na verdade, uma ideologia] que fundamenta a orientação didática que, como diz com bastante clareza o professor entrevista, mistura alhos com bugalhos.

    O professor Bagno inventou um “conceito” e até hoje sobrevive muito bem com isso. Consta que suas palestras lotam plateias pelo Brasil. O livro de Bagno, “Preconceito Linguístico: o que é, como se faz”, é uma verdadeira bíblia para milhares de estudantes de pedagogia e de letras e profissionais da área. O best-seller está em sua 52ª edição e já vendeu mais de 200.000 exemplares. Seguramente é a “obra acadêmica” de maior sucesso em toda a história do Brasil.

    “Preconceito linguístico” é uma pasteurização bem ao gosto dos dias de hoje. É uma customização, uma antiga prática de picaretagem acadêmica, do conceito de violência simbólica do sociólogo Pierre Bourdieu. No ambiente intelectual sério esse conceito é criticado por gente de igual peso. Aqui a crítica é “coisa de burguês” e na Selva Brasilis o conceito transmutou-se em dogma sob a chancela “preconceito linguístico”. Para as mentes preguiçosas tapuias isso é o “mamão com açúcar”, a varinha mágica que tudo explica e resolve. E aí essa turma sai por aí cacarejando pelos quatro cantos do pais: “preconceito linguístico”, “preconceito linguístico”, “preconceito linguístico”, “preconceito linguístico”, “preconceito linguístico”.

    Repito o que já escrevia em outro lugar. Adoniram Barbosa fez os seus sambas e é de um ridículo oceânico aventar a possibilidade de que milhares de Adonirans não desabrocharam devido ao maligno “preconceito linguístico”. A diferença entre Adoniram Barbosa e a maioria dos alunos que dizem “nóis fumo” é a mesma que distingue o físico medíocre de Einstein: os dois foram gênios no que fizeram. E genialidade não se adquire na escola. Escola era o lugar para desasnar, mas desgraçadamente parece mais ter virado um grande pasto de asnos.

  3. Será que a “intelligentzia” nacional sobreviverá 2012?
    Passaram oito anos cumpliciosamente vendo a banda vermelha passar sem ousar levantar uma voz discordante.
    O mérito – como objetivo maior a ser alcançado – foi mandado “pras cucuias” em quase todas as áreas de atividades.
    ‘La sinistra’ vai acabar dando o tiro de misericórdia na nuca de Banânia!

  4. Ainda hoje, pssando pela Cav. Basílio Jafet, encontrei o seguinte cartaz – feito em papel ofício, num Word da vida:
    OFERTA DE TRABALHO
    Exigências:
    – Fazer uso correto da Língua Portuguesa
    – Matemática (tabuada, % “regra de três”)
    – Noções de Informática
    – Morar em São Paulo

    Viram lá? FAZER USO CORRETO DA LINGUA PORTUGUESA.
    Quem foi o “idiota” que fez esse cartaz burguês e preconceituoso?
    Provavelmente, alguém que quer ter o seu comércio bem visto pela patuléia, nénão?
    Eu tirei a foto. Para mim, foi acachapante!

  5. E essa discussão a respeito deste livro me fez chegar à seguinte conclusão(uso crase sim, ao diabo com esta reforma cretina):

    A atualmente “malfalada” norma “culta” simplesmente UNE as pessoas. Como assim?

    Para unir pessoas de diferentes falares e sotaques de uma mesma língua em torno de uma única forma q fará com q todos se compreendam. Se cada um passar a escrever da maneira com a qual fala(e o falar é altamente SUBJETIVO, o q, não raro, acaba em confusão e desentendimentos de comunicação), dá um nó e ninguém acaba se entendendo, pq uma mesma palavra pode ser falada de uma forma em um estado e de outra forma em outro, assim como cada PESSOA fala e entende os fonemas das palavras de maneira diferente das demais. Um exemplo já clássico é o abominável “miguxês” de internet( parece q os adolescentes parecem ter feito um “código” para se comunicar entre si, pq tem coisa q a gente não consegue entender, hehehehehe), no qual escreve-se como bem entende e como se fala(aquele excesso de “x” me irrita profundamente). A norma culta tá aí pra isso, para dar uma certa unidade idiomática q fará com q todos, independente de região, sotaque, cor, idade, sexo, etc, se entendam e compreendam, tendo uma comunicação melhor, demonizá-la em prol da aceitação de diferentes linguagens e todo esse “vale-tudo” lingüístico irá levar, no final das contas, aos “guetos linguísticos”, nos quais cada grupinho terá a sua linguagem, de difícil entendimento pelos demais, podendo dividir ainda mais a sociedade(dividir para dominar… Esse filme já vimos antes! xD). Enfim, norma culta não é problema, não é “preconceito contra os pobres”. É solução.

  6. Morena Flor, Luiz Schuwinski, nã há que ter medo dessa bazófia esquizofrênica. O que eles querem é isso: gerar medo. Só vivem disso e alimentam-se disso. Quando enfrentados, embora reajam, perdem. Assim Morena Flor, os guetos linguísticos não prosperarão, depois de tanta resistência. Tanto que eles estão acusando todos de tudo a torto e a direito. Estão em crise, o núcleo, político deles está esfacelado, só sobram as atitudes de potentado do ex-presidente, que também não vai durar muito, exceto para os puxa-sacos de sempre que consideram tais atitudes com bovino aceite.

  7. Dawran, o que importa é que a grita foi geral, e que esse tipo de coisa não vingará. Acredito que a maioria brasileira ENTENDE que a escola é para melhorar, não para formar exércitos de porra nenhuma.

    Paulo, eu li isso faz uns quinze anos, na inocência. Tem pinta de panfletinho, não? Tenho cá comigo que esse Bagno deve ter sofrido algum vexame quando criança e isso se transformou em uma mágoa ativa.

    Eu vi, Mauro! Só pelos tuits que ele escolheu, já dá pra ter uma ideia da lambança que seria a aceitação da fuleirice como norma.

    Não sei, não, Schu! Acredito que o Brasil é mais. Mas que andam fazendo um estrago, ah, andam!

    Maria Edi, hoje mesmo vi o cartaz de uma empresa que instala bombas de gasolina. Algo em torno da meta de qualidade. Cara!!!!! Você tinha de reler umas três vezes até adivinhar o que quiseram dizer! Uma sintaxe bagniana! Alguém me disse: foi a Dilma que escreveu, é?

    Morena Flor, a crase (agradecendo a Jesusinho Cristinho) não sofreu alteração com a reforma ortográfica. Mas, nunca se sabe o dia de amanhã…

    E você pegou no ponto! Guetos linguísticos, para a comunicação horizontal ir para o beleléu e a dominação ser mais eficiente. Eu continuo, aos trancos e barrancos, tentando a norma culta, e acho que todos deveriam tentar também, desde o mais abastado mauricinho do Morumbi até o mais pobre da região mais pobre do Brasil.

    Depooooooois, se se quiser pesquisar, e tal, aí a pessoa vai (quem desgosta de um “Viola, Minha Viola”, ou um “Senhor Brasil”?). Mas tem de dominar a norma culta PRIMEIRO. Senão o país vira uma babel, bem vulnerável a qualquer tipo de dominação.

  8. O problema é que quando o lulismo, ou seja, a massa de ideólogos de botequim que seguem os preceitos esquerdofrênicos de Pindorama age dessa maneira, alertando que o uso correto do idioma é “elitismo”, estão fazendo o jogo do povão que gosta de pensar assim… eu digo e repito sempre: o povo brasileiro é burro, individualista, desonesto e preguiçoso, e a partir disso, ele adere a qualquer teoria, por mais estapafúrdia que seja, para se dizer injustiçado pelo mundo e alijado das oportunidades.

    Mas no fundo, no fundo, mesmo sendo burro, o povo brasileiro sabe que usar o idioma com o mínimo de qualidade e correção é importante para seu progresso pessoal… enfim, usa essas teorias conspiratórias atribuídas às elites, para se dar um, digamos, interlúdio entre a necessidade de trabalhar, coisa que, herança portuguesa, não é bem vista por aqui e se esforçar de verdade para que as coisas aconteçam.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s